
“Segundo a antiga crença de uma etnia
indígena, quando ocorre o nascimento de gêmeos um deles deve ser sacrificado,
pois carrega consigo a essência do mal.”
Poucas semanas de vida, quisessem ou
não, a mãe já tinha amor por aquelas crianças. O amor maternal não escolhe o
bem ou o mal e ambos já a haviam cativado desde que estavam em seu ventre.
Como, no futuro, olhar para um sem se lembrar do outro?
Pensou em fugir com as crianças para
evitar a morte do filho, mas ainda que o amor fosse grande ela temia a maldade
que um deles carregava dentro de si. Essa maldade traria desgraças a todos da
aldeia, até mesmo ao mundo.
Para nós, “brancos”, era uma barbárie,
mas para os indígenas daquela etnia não era nada além de uma chance de provar
ao Grande Deus que eram capazes de cumprir seu papel e honrar seus costumes.
Chegou então o momento. Céu limpo e lua
cheia iluminando todo o local. Todos os moradores, e alguns convidados de
aldeias próximas, formavam um enorme círculo ao redor do que era uma espécie de
altar. Sobre ele ambos os bebês estavam deitados, pintados nas cores, conforme
ditavam os costumes, alheios ao fatídico destino de um deles.
A mãe, que se derramava em lágrimas,
era amparada pelo marido e pelas irmãs.
O pajé, em meio a canções entoadas por
todos, bebeu de um só gole um chá feito a partir de raízes e folhas
misteriosas. Deu umas baforadas em um bem adornado cachimbo de madeira e
finalmente entrou em contato com os espíritos ancestrais. Eles lhe diriam qual
das crianças carregava dentro de si o espírito do mal. Era responsabilidade
deles identificar a criança boa da criança má. O pajé seria apenas seu
instrumento de justiça.
Olhos fechados, como num profundo
transe, o velho índio proferia palavras para nós incompreensíveis e, ao abrir
os olhos, num único e certeiro golpe, rasgou o peito de uma das crianças com um
punhal feito de quartzo azul. O sangue escorreu pela rocha polida até o chão de
terra batida.
A criança sequer chorou. Sua morte foi
instantânea e cânticos indígenas foram entoados para encerrar a cerimônia.
Assim que a mãe apanhou a criança
sobrevivente uma torrencial chuva, que chegara repentinamente, desabou sobre a
aldeia.
Era o Grande Deus lançando sua bênção
sobre eles, por terem cumprido com seu papel. A chuva servia para purificar o
solo, as plantas, os animais e os índios. Almas lavadas.
Passaram-se os anos e o
acontecimento já tinha quase sido esquecido.
O então bebê agora já tinha treze anos
e em breve se tornaria um guerreiro. Já há algum tempo era treinado com essa
finalidade e seu pai se encarregara disso, utilizando as armas e as técnicas de
batalha de sua cultura.
Numa manhã nebulosa, porém, a aldeia
estava deserta. Nenhum índio saiu de sua oca. Nenhuma fogueira foi acesa e nenhum
desjejum foi preparado. As abundantes crianças que normalmente estariam perambulando
por todo lado tinham desaparecido.
De pé sobre o altar onde outrora seu
inocente irmão fora morto, o índio de alma maligna gargalhava ensopado com o
sangue de todos os moradores da aldeia.
O pajé havia se enganado quanto à
criança a ser sacrificada.
Ainda hoje, em pleno século XXI, tal crença ainda faz parte dos costumes de alguns povos.
Cara que conto Animal
ResponderExcluirTomei a liberdade de gravar um áudio dele
Gostaria de pedir sua permissão para o postar em meu SoundCloud