terça-feira, 21 de setembro de 2010

Conto - O Achado.



Ainda não existiam muitos lugares como aquele: históricos e inexplorados.
Por que ainda não o haviam descoberto? Nunca haviam se interessado em explorá-lo? Ainda não me era possível saber, mas era chegada a hora de decifrar esse mistério.
Encravado sob o solo eu finalmente o encontrara. Pela ação do tempo era difícil precisar se aquilo se tratava de um templo ou um palácio, mas ainda que corroído pela ação dos séculos ele era maravilhoso.
Suas características indicavam a data de sua construção sendo anterior ao nascimento de Cristo.
Ali sozinho me sentia viajar através do tempo. A equipe formada por habitantes locais ficara na floresta aguardando meu retorno. Prostrados à entrada da caverna insanamente amedrontados com as lendas que corriam acerca daquele lugar, para eles maldito.
Lendas, nada além disso. Talvez as mesmas que impediram outros exploradores de ali chegarem antes de mim.
Não me impressionei com toda aquela história, para mim fruto da ignorância de povos alheios à Ciência, e ali estava eu diante da maravilha que persegui por toda minha vida.
Adentrei o local úmido e frio contando apenas com a iluminação do meu capacete e de minha lanterna, e cercado pelas milenares paredes esculpidas na rocha me sentia há séculos no passado.
Estranhas imagens em rocha desgastada e coberta por musgo pareciam vigiar aquele lugar, somente estátuas decorativas, possivelmente as que deram origem às lendas locais. Não fui capaz de controlar uma pequena risada sarcástica.
Após o grande salão de entrada me deparei com um corredor cujo final não me era possível precisar, mas segui adiante até atingir outro enorme salão.
Ao adentrá-lo verifiquei que era bem mais amplo que o primeiro e pude vislumbrar uma gigantesca imagem ao fundo que, assim como tudo naquele local, fora esculpido em rocha bruta. Estranhamente ela parecia imune à ação do tempo: corpo de homem e cabeça de algo semelhante a um touro ou uma cabra com uma língua bifurcada a escapar-lhe da boca. Uns oito metros de altura, calculei, embora a luminosidade de que dispunha não fosse muito favorável para tais cálculos.
Confesso que um arrepio subiu-me a espinha. Seus olhos pareciam dirigir-se diretamente sobre mim, ainda que frios, pareciam enxergar dentro de minha alma.
Porém mais que a feição impassível do ídolo à minha frente o que me horrorizou foi constatar a presença de alguns esqueletos caídos aos seus pés. Esqueletos que não eram antigos, o que pude verificar por suas vestimentas.
Não, os pesquisadores não haviam se omitido de encontrar aquele local, eles o haviam feito, porém não puderam dizer isso para o restante do mundo.
O que teria acontecido? Tudo estava inerte e silencioso, não havia o que temer senão a escuridão que invadia cada fresta úmida daquele lugar.
Repentinamente, ao vasculhar o local com a ajuda da luz que utilizava, me deparei com uma urna bem trabalhada.
Estava entreaberta. Meu coração bateu forte. Tesouros?
Sua tampa, mesmo esculpida em rocha, foi facilmente removida e dentro dela encontrei alguns pergaminhos que ao serem manuseados demonstraram serem de um material que eu não conseguia identificar. Era macio, porém gorduroso, mas continha muitas escrituras em uma grafia cuneiforme que me era bastante familiar: suméria.
Anos de estudo, ainda que a débil luminosidade atrapalhasse bastante, consegui traduzir o conteúdo do que primeiro me veio aos olhos:

Brilhas mais escuro que a noite
És mais antigo que a luz
Invisível, sem corpo, casco ou face
Ainda assim és nosso mestre quando o deseja;

Penetras e paralisas a mente
Enquanto fortalece e rejuvenesce o espírito
Desejas, ordenas e adquires
Aquilo tudo que é do teu agrado;

Aquece-nos desde que o tempo é tempo
Protege-nos a partir de nossa criação
Fortalece-nos ao o adorarmos
Massacrando os incrédulos;

Surges em nossos sonhos
Ainda que estejamos despertos
Cuida de nossos corações
Mesmo sendo eles ainda humanos;

Assustador, por vezes
Grandioso por todo o sempre
Benevolente quando não sedento estás
Onipotente pela eternidade;

Aqueces nossas almas
Acalenta nossos corações
Protege nossa nação e filhos
Grandioso és tu Baphomet.

Como que tomado por uma inspiração inconcebível a leitura mental do texto ecoou pela escuridão quebrando o tétrico silêncio que tudo até então dominava. As palavras escaparam de meus lábios sem que eu me desse conta. Um cântico, uma poesia...
Ainda atônito pude apenas perceber uma luz de procedência desconhecida que se derramou sobre mim e que, ao invés de aquecer minha alma, pareceu congelar meu sangue e travar cada músculo meu.
O corpo agora imóvel desabou no chão de rocha fria e pegajosa.
Não sei por quanto tempo fiquei ali “acorrentado”. Os olhos apenas observaram o definhar das luzes de meus aparelhos até entregarem-se à escuridão, assim como meu corpo se entregou à morte após várias horas de angústia e lamentação.
Antes do suspiro derradeiro perguntei-me: eu o havia encontrado, Baphomet, ou ele a mim?

4 manifestações:

  1. Muito bom!

    O mito de Baphomet é muito interessante e não costuma ser tão bem explorado.

    O Discovery exibiu um documentário sobre os templários e abordou superficialmente algumas facetas do mito, inclusive mostrou uma suposta imagem da "entidade".

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  2. gostei muito do conto.

    abraços.

    http://terza-rima.blogspot.com/

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  3. Nossa, cada vez parece estar aprimorando mais a técnica, parabéns!

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  4. Muito bom seu conto!!! parabéns pelo lindo e obscuro blog!!!
    Visite o meu se puder
    susyramone.blogspot.com
    bloody kisses

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