Conto - ...morada do Diabo.



Admirada e invejada. Poucos conseguiam ser como ela, embora muitos assim o desejassem.

Linda, responsável, inteligente... A lista de adjetivos que tornavam aquela mulher um exemplo de perfeição era extensa.

Mas tudo tem um começo, um meio e um fim.

Por ironia do destino sua vida se transformara drasticamente a partir do instante em que fora demitida da empresa em que trabalhara durante anos.
Independente e bem sucedida ela jamais cogitara a hipótese de casar-se.
Tia, solteirona? Ela jamais se preocupou com a opinião das pessoas uma vez que jamais dependera delas para nada.
Aquela que sempre havia sido um exemplo passou a ser então um rascunho diante da mulher admirável que foi um dia. Ela foi mudando...
Dia após dia seu sorriso foi desaparecendo. Seu cabelo sempre ajeitado agora estava desgrenhado. O brilho em seus olhos parecia apagar mais e mais com o passar dos dias.
Uma vela que aos poucos vai se consumindo até o dia em que se apaga.
Isolou-se. Tinha vergonha do que se tornara, mas não possuía ânimo para voltar a ser o que era antes. Quem se encontrasse com ela nas raras vezes em que saía de casa jamais a reconheceria.
Ingratidão? Inveja? No início passava horas tentando entender o motivo da virada que havia acontecido em sua vida, mas em dado momento nem mesmo com isso ela se preocupava mais. Havia como consertar tudo? Ela desejava consertar? Valia a pena?
Não se preocupava com mais nada. Não desejava mais nada. A vida tinha perdido suas cores, seus encantos e sua beleza.
O telefona tocava, mas ela não atendia até que foi cortado por falta de pagamento...
Visitas à sua casa escassearam quando perceberam que ela não fazia questão de atender a porta.
Convites dos amigos se extinguiram conforme ela sequer respondia à eles.
Isolou-se do mundo.
Desistiu da vida.
Revoltara-se com a ingratidão daqueles que sempre ajudou.
Indignara-se com a inveja que os fracassados nutriam por ela.
Enojava-se de si mesma. Por não ter lutado, não ter destruído quem se pôs em seu caminho.
Políticamente correta, sempre, e esse foi seu grande prêmio: o estado em que agora se encontrava.
Talvez se tivesse sido mais competitiva, mais dura, mais desonesta... Talvez... Mas de que adiantava pensar sobre isso tudo agora que não possuía mais tudo aquilo que tanta inveja provocara?
Uma casa abandonada, escura... Os vizinhos sabiam que ainda havia alguém ali pelos gritos que por vezes ouviam em seu interior.
Sozinha em sua casa suja ela dialogava com a escuridão e com as vozes que ela trazia. Madrugadas em claro tentando argumentar com aqueles que não mereciam atenção. Criaturas que se escondiam na penumbra por envergonharem-se do que eram. Assim como ela agora fazia.
Vozes vinham-lhe à mente sempre que ela se descuidava. Falavam e falavam. Algumas desesperadas e afoitas como criminosos próximos da execução. Já outras eram bem articuladas e falavam com calma e malícia. Não, ela não queria conversar e tentava ignorá-las, mandava-as se calar... Quando desistia de ignorá-las passava a discutir com elas, como relatavam os vizinhos.
Idéias absurdas. Argumentos errôneos...
Certo dia adquiriu uma bela pistola prateada. Embrenhou-se num lugar asqueroso que dificilmente visitaria para adquiri-la, mas assim o fez, guiada pela voz que ardilosamente sussurrava em seus ouvidos. Era bom precaver-se, estar armada. Talvez aqueles que a invejavam ainda não estivessem satisfeitos e tentassem dar cabo de sua vida. Uma arma lhe traria a segurança necessária. Sugestão de um daqueles que faziam-lhe companhia pelas madrugadas frias.
Não acendia as luzes para não ter que vislumbrar nos espelhos aquilo que era refletido: uma mulher amarga e triste.
Tudo tem um começo, um meio e um fim.
As vozes sempre a lhe falar aos ouvidos. Algumas já eram conhecidas, mas por vezes novos interlocutores surgiam com idéias novas e bem mais infelizes.
Poderia disparar contra os vizinhos e assim vingar-se de toda maledicência.
Visitar parentes e dar cabo de suas vidas medíocres. Eliminar a inveja que sempre transbordara de seus olhos quando se encontravam com ela.
Horrorizar a sociedade invadindo uma creche ou colégio disparando a esmo. Mostrar à todos do que ela ainda era capaz de fazer.
Gritar para o mundo. Mostrar ao Universo que não valia a pena ser como ela. Que os bons não são valorizados.
Provocar nas pessoas uma dor tão terrível como aquela que ela vinha sentindo há meses.
Não, aquilo era muito pouco. As vozes diziam que ela merecia mais que isso.
Com os olhos inundados por lágrimas de tristeza ela vislumbrou o nascer do sol que anunciava o raiar de um novo dia. O sol refletido no objeto prateado que trazia nas mãos parecia despedir-se.
E não mais ela ouviu as vozes. Não tinha mais que se vingar de quem quer que fosse. A necessidade de provar algo à alguém desapareceu. Aquele foi o último nascer do sol que ela vislumbrou...
Tudo tem um começo, um meio e um fim.


4 comentários:

  1. Clayton Kavauskas28 de junho de 2009 01:50

    Simplesmente perturbador.
    Está de parabéns assim como em diversos outros contos que li aqui no seu espaço.

    Parabéns.

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  2. sim, verdade o fechamento de seu conto. o que estará por trás da vida perfeita de cada um? todos temos nossas cruzes.

    Blog Suicide Virgin

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  3. "Criaturas que se escondiam na penumbra por envergonharem-se do que eram."

    Excelente!

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  4. Muito bom os contos ... vou incluir o blog nos meus links.
    abraços
    adriano siqueira
    www.contosdevampiroseterror.blogspot.com

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