Conto - Abaixe o Volume.




Saudações visitante do blog!!!
Hoje o conto que postarei é deveras especial uma vez que se trata de um fato verídico e não apenas fruto da minha imaginação.

Sim, talvez agora entenda os motivos pelos quais o escritor se fascine pelo gênero abordado no blog, ele já vivenciou coisas do tipo.

Mas por que uma postagem especial hoje? Ora, ora, porque o autor hoje completa trinta e cinco aninhos de vida insana!!!!

Sim, parabéns para mim!!!

Mas vamos lá, ao que interessa.
O conto de hoje foi vivenciado por mim já há vários anos e os detalhes se fazem presentes dentro do conto. O mesmo já foi postado no site Sobrenatural.org, mas resolvi, sob inspiração irresistível, reescrevê-lo e postá-lo no dia do meu aniversário como uma maneira de comemorar a data.
Espero que aprecie.

Um abraço!!!


Todo amante de heavy metal sabe que a melhor maneira de se apreciar o estilo é ouvi-lo ao ponto de quase estourar o aparelho de som, o problema é que existem aqueles que não o apreciam, e para essas pessoas essa prática é deveras torturante, chegando (em alguns casos) a ser considerada até mesmo um sacrilégio.
Racso não era diferente e custou muito para que ele se acostumasse com a idéia de que ouvir suas bandas preferidas (Iron Maiden, Black Sabbath, Metallica e afins) em volume nada ensurdecedor se fazia necessário para que fosse mantida uma convivência harmoniosa com sua avó, com quem havia ido morar por obra do destino.

De início sempre ocorreram alguns aborrecimentos em virtude disso, mas como estava na casa dela se via obrigado a seguir suas regras.

Vez ou outra, quando a anciã se ausentava por algumas horas, os vizinhos eram torturados com as guitarras manipuladas magistralmente pelos músicos que delas fazia uso, e Racso podia então chegar ao êxtase.

Sua avó, no entanto, ao retornar ao seu lar, parecia pressentir as notas ainda ressoando nas tábuas da antiga residência, e seu humor sempre ficava péssimo. Ela nada dizia, mas sua forma de agir falava por si.

O problema é que não era sempre que Racso podia usufruir desses momentos, e a abstinência à qual seus tímpanos eram submetidos o chateava bastante.

_Isso é coisa do diabo, esses homens falam do demônio!! Você não vai pro céu ouvindo essa porcaria!! – dizia a avó censurando seu gosto pelo gênero.
A verdade era que ela desconhecia totalmente o idioma no qual as músicas eram cantadas e sua opinião se baseava somente sobre o velho preconceito que freqüentemente paira sobre esse estilo.
Embora os guturais furiosos e as distorções das guitarras pudessem indicar o contrário, na maioria das vezes as letras nada tinham de satânicas (demos um desconto para o Black Sabbath).
Mas não adiantava argumentar, embora ele tenha tentado fazer isso algumas vezes, a avó era irredutível quanto à sua opinião e mudar um conceito enraizado já há muitos anos era bastante difícil, principalmente em se tratando de uma pessoa de idade criada no interior, que detinha uma teimosia ímpar.
Mas com o passar do tempo Racso acabou se acostumando, e embora contrariado, pouco ouvia as músicas que eram de seu agrado, e quando ainda o fazia, procurava utilizar fones de ouvido para evitar criar problemas com aquela que o acolhera maternalmente em seu lar. Não era a mesma coisa, as paredes de madeira e o assoalho não sacolejavam com as rajadas sonoras promovidas pelas baterias, mas tinha que se contentar com isso.
Como era inevitável, repentinamente a matriarca adoeceu e dentro de algumas semanas acabou seguindo para uma outra realidade.
Racso, obviamente, se entristeceu bastante, não somente por se tratar de sua avó (com quem tinha se habituado a conviver mesmo diante de suas diferenças), mas sobretudo pela gratidão que por ela nutria devido a tudo o que ela havia feito por ele. Era sua avó.
Passaram-se algumas semanas, beirando quase um mês, quando Racso resolveu pôr então um fim ao luto que mantinha pela partida da pobre senhora, e colocou no seu já quase esquecido aparelho de som a música Hallowed Be Thy Name, na versão tétrica da banda Cradle of Filth.
Sim, Racso resolvera abolir o luto, e toda a vizinhança percebeu isso, provavelmente manifestando sua indignação, principalmente pelo fato de a noite já ter se manifestado já há algumas horas.
Assim que os primeiros acordes foram entoados ele teve a impressão de ouvir sua avó esbravejar para ele diminuir o volume. Assustado, por mais que aquilo parecesse absurdo, ele fez o que a voz ordenava histéricamente e aguçou os ouvidos na ânsia de ouvir novamente as ordens da falecida. Nada, o silencia era total uma vez que se tratava de um pacato bairro suburbano de uma cidade interiorana. Somente grilos e cigarras eram ouvidos.
_Caramba, devo estar ficando louco. – disse ele percebendo o quanto aquilo era improvável, e novamente aumentou o volume se encaminhando então para banhar-se ao som da música ensurdecedora. Ele adorava aquilo e sequer podia se recordar da última vez em que pudera apreciar um momento como aquele: tomar um banho demorado ouvindo um bom heavy metal.
No entanto, em meio ao banho, cabeça ensaboada e olhos fechados protegendo-se da espuma, a música repentinamente baixou de volume drasticamente.
“Será que acabou a luz?” – ele se perguntou. Mas a música não havia desaparecido, apenas diminuído de volume, e abrindo um dos olhos percebeu que tanto a água permanecia quente quanto a luz ainda estava acesa. Não, o problema não era com a energia elétrica. O que estaria acontecendo?
Após a partida de sua avó ele ficara sozinho na casa, como o som poderia se comportar daquela forma sem a interferência humana? Impossível!!
Um inexplicável frio lhe subiu pela espinha e desesperadamente Racso saiu do banho e se enrolou na toalha e, para aumentar ainda mais seu pavor, ele ouviu nitidamente um arrastar de chinelos pela casa, idêntico ao som dos passos da falecida.
Seu coração disparou, aquilo não podia estar acontecendo, e o medo invadiu sua alma.
Não que ele temesse que aquela que tanto bem lhe fizera em vida pudesse lhe fazer algum mal, mas pelo simples fato de algo sobrenatural estar se manifestando.
Ele sempre acreditara em tais fenômenos, mas jamais podia imaginar que presenciaria algum deles, o que fazer? Ele tremia.
Ouviu a contida risada que era de costume da finada avó: era ela, sem dúvida alguma.
Correu até seu quarto, onde o aparelho de som estava instalado, e notou que realmente o botão do volume indicava um tom que beirava a mudez.
Olhou ao redor e não viu nada de anormal, verificou as portas e janelas e tudo estava devidamente trancado, como havia deixado.
Sim, parece que, mesmo após sua partida, a saudosa avó não permitiria que as músicas “satânicas” (segundo ela), fossem entoadas dentro de sua casa.


3 comentários:

  1. Parabéns!

    Vovós e metal não combinam, nem no além...

    Coloquei a Hallowed Be Thy Name com o COF enquanto lia...

    Abç!

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  2. Muito bom!!!
    Adorei a idéia de inverter o nome... rsrsrs
    Parabéns pelo seu aniversário!!!

    Bloody kisses!!!

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