sábado, 28 de janeiro de 2012

Conto - O Prisioneiro Maldito.



Péssima noite para pegar a estrada, uma chuva torrencial caia sobre a cidade, mas Jaime tinha que ir visitar sua mãe, que na última tarde fora internada, vítima de um mal súbito.
Enquanto trafegava em velocidade moderada um estranho arrepio lhe percorreu a espinha, como se pressentisse o pior.
Parecia que ele era o único a trafegar pela rodovia, e provavelmente deveria mesmo ser, as condições do tempo eram terríveis. Receoso pelo pior, ele resolveu que esperaria um pouco assim que avistasse um local seguro para encostar o carro, não estava se sentindo bem.
Alguns quilômetros adiante ele avistou uma luminosidade no meio da mata, saiu da rodovia e por uma barrenta estrada vicinal ele seguiu para o local. Acabou por se deparar com um mosteiro de aparência milenar e resolveu entrar para pedir abrigo.
Bateu à maciça porta de madeira, mas ninguém parecia disposto a atendê-lo. Insistiu, ele percebia que não estava em condições de seguir viagem, mas antes que alguém abrisse, ele desmaiou.
Jaime desperta com uma terrível dor de cabeça e um mal estar que jamais sentira, em um pequeno quarto escuro que dispunha apenas de uma rústica cama na qual estava deitado.
Pelo som na janela, a chuva não dava trégua, ainda.
Assim que tentou se levantar um monge, trajando a túnica habitual, entrou no quarto.
-Obrigado por me darem abrigo, mas que lugar é esse? Nunca ouvi falar de um mosteiro por aqui...
-Você deve deixar esse lugar o quanto antes. – balbuciou preocupado o homem.
-Sim, assim que eu me sentir melhor, não estou nada bem.
-Saia, o quanto antes. – finalizou o homem, antes de deixar o quarto.
Sua garganta estava seca, ele transpirava em abundância e parecia febril. Jaime decidiu sair e pedir um pouco de água e algum remédio, se deparando com um longo corredor iluminado por candelabros nas paredes. Mesmo sendo um local dedicado a Deus, o mosteiro era apavorante.
Perambulou com dificuldade pelo corredor sem encontrar mais ninguém, até se deparar com uma escadaria, descendo por ela.
Aterrorizado ele percebe que o local se parece com uma masmorra, e dá um pulo quando ouve uma súplica de dentro de uma das celas.
-Por favor, me ajude, meu amigo. Estou preso aqui há muito tempo, e esses monges me torturam diariamente. Me solte e eu te levo até a saída. Temos que sair daqui antes que eles façam o mesmo com você. Por favor... – um homem de aparência cadavérica estava agarrado às grades.
-Mas, por que eles fariam is...
-Saia já daí! Afaste-se dele! – interrompe uma voz autoritária por trás de Jaime.
O monge o agarra pelo braço e o arrasta pelos corredores sem que Jaime consiga esboçar alguma reação devido ao seu péssimo estado.
Logo ele está em um amplo salão repleto de outros monges, que o olham com severidade.
-Sabemos do seu estado, rapaz, no entanto não podemos permitir que permaneça conosco. Ficamos preocupados com seu estado, mas foi um erro deixá-lo entrar. Você terá que deixar nosso mosteiro imediatamente. – sentenciou aquele que parecia o líder.
Jaime, antes que pudesse argumentar, desmaiou novamente.
Assustado ele desperta com o impiedoso ruído dos trovões que acompanham, ainda, a torrencial chuva.
A porta do quarto está aberta e logo lhe vem à mente a súplica do prisioneiro. Ele devia fazer algo por ele.
Ganhou mais uma vez o extenso corredor e procurou algo com que pudesse arrebentar a corrente que trancava a cela do pobre homem. Com dificuldade ele acabou encontrado um pequeno depósito, onde se muniu com uma enorme chave de fendas.
Jaime voltou pelo corredor e logo reconheceu a escadaria que levava à masmorra.
-Amigo, irmão, sabia que você voltaria. Por favor, me tire daqui. Esses monges seguem o mal e se deliciam com as torturas que me impõem. Me solte, por favor.
Jaime, com dificuldade, acaba por estourar a corrente e assim que se vê livre o cadavérico homem sai correndo da cela e desaparece em meio a diabólicas gargalhadas.
-Maldito, o que fez? – grita um monge agarrando Jaime pelo braço.
-Me solte, desgraçado! – Jaime luta para se desvencilhar do monge.
-Sabe o que acaba de fazer? Você libertou Lúcifer de sua prisão, e agora sua alma está amaldiçoada! Como retribuição ele condenará sua alma ao inferno pela eternidade! – esbraveja o religioso jogando-o no chão.
Jaime solta um terrível grito.
Um fulminante enfarto o acomete, arremessando sua alma aos confins do inferno.


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