Conto - Lágrimas de Deus.






A chuva batia no telhado. Em pleno dia a escuridão engoliu tudo ao redor. O vento revoltado se esforçava para arrancar a árvore que balançava nervosa espalhando folhas e gravetos pelo quintal.

Gritos vindos de todos os lados. O que seria aquilo? Lia caminhou até a janela da frente e viu que muitos corriam tentando se proteger daqueles pingos grossos e insistentes, mas por que diabos precisavam gritar?
Uma fumaça branca brotava do chão lá fora formando uma leve camada que subia a seguir. Muito estranho.
Precisava pegar a filha na escola, então entrou em seu carro e logo que saiu da garagem o veículo foi cercado por pessoas que batiam desesperadamente no vidro pedindo socorro.
Apavorada, Lia passou por eles acelerando sem prestar ajuda.
No caminho, uma mulher desnorteada se atirou em sua frente e Lia apertou os olhos ao sentir os pneus passarem por cima dela esmagando e arrastando seu corpo pelo asfalto.
A chuva lavava o sangue espirrado no vidro evidenciando um braço arrancado sobre o capô do carro.
Banhada em suor, acordou daquele pesadelo. Um pesadelo. Isso. Nada mais. O sol brilhava no céu, graças a Deus! Alívio.
Lia teve um dia absolutamente normal e as três da tarde entrou em seu carro para buscar a filha na escola. Lembrou-se daquele sonho esquisito. Credo, Deus me livre, pensou.
Durante o trajeto, o céu começou a escurecer premeditando a tempestade. Ao parar em um farol, um indivíduo armado a obrigou sair do veículo e ali parada no meio da rua ela ficou indefesa, sem reação assistindo o marginal ir embora com o seu bem.
Tremendo e muito nervosa, sentiu o primeiro pingo de chuva que a queimou feito ácido e em questão de segundos milhares deles caíam sobre seu corpo corroendo a pele e levantando a mesma fumaça branca que visualizou em seu sonho.
Ela gritava em desespero. A chuva a queimava e com os olhos ardendo correu sem direção, como quem tenta se livrar da dor que não cessa, como quem tenta se abrigar onde não há abrigo...
Ouviu um estrondo ao colidir com uma superfície dura e foi puxada para baixo tendo o braço arrancado e o corpo esmagado pelos pneus de um carro.
Lia morreu antes de testemunhar a destruição da cidade pela chuva literalmente ácida, que acabou com as casas e derreteu tudo o que era vivo da mesma forma que as lesmas são dissolvidas em contato com o sal.
O fenômeno foi batizado como Lágrimas de Deus e pode retornar a qualquer momento, em qualquer lugar e dar fim a tudo o que existe como punição divina pelos feitos do homem.



Susy Ramone

Biografia: Susy Ramone é o pseudônimo de Susana Lima, nascida em São Paulo - Capital em 1977. Professora de inglês e escritora, teve a sua primeira publicação impressa intitulada O anjo maldito pela editora Livros Ilimitados em 2010 e um de seus contos será publicado na antologia Histórias Envenenadas da Editora Andross com lançamento previsto para agosto. Muitos de seus textos fantásticos podem ser encontrados no blog Red Rose: www.susyramone.blogspot.com







2 comentários:

  1. Criativo, envolvente e com final moral, muito legal, Suzy, gostei mesmo!!! =D

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