Conto - A Outra Debutante.





Acabáramos de nos mudar para uma casa imensa, e eu ainda nem conhecia todos os cômodos quando meu pai resolveu promover minha festa de quinze anos. Eu estava matriculado apenas a uma semana no colégio da cidade, de forma que era tudo muito novo para mim.

O salão de entrada já havia sido ornado com o que meu pai considerou mais digno para comemorar um aniversário no dia do Halloween: morceguinhos pendurados por fios, adesivos de bruxinhas nas paredes, abóboras esculpidas com velas em seu interior, ao feitio de cabeças degoladas, e diversos docinhos em forma de aranha, sapos e dedos – até o bolo havia sido encomendado na forma de um crânio, parecendo-me bastante real. Fora isso, as imensas cortinas bege-empalidecidas dos vitrais da frente completavam, acobertando a gigantesca lua-cheia, o aspecto tenebroso da recepção.
Soa a campainha. A princípio animado, abri a pesada porta da frente com esforço. Surpreendi-me ao ver que os convidados chegaram todos juntos, logo passando por mim uma vampira, um Jack Lanterna, uma sibila, um lobisomem, uma múmia e demais seres da profundeza, ao todo completando 20 diabretes muito bem fantasiados, enquanto eu, com uma velha camiseta larga e um capuz feito de saco de pano, era um reles “fantasminha camarada”.
Ao constatar que os convidados haviam chegado, meu pai ligou o som e um globo de iluminação que ele havia instalado para a festa, espalhando bolinhas coloridas pelos risos alheios e meu corpo estático. Enquanto os meus colegas atacavam os docinhos e dançavam um rockabilly, eu, acanhado, quedei num dos grandes sofás acolchoados, condenado ao meu ridículo camisetão de linho.
Observava uma garota que trajava um espartilho e uma longa saia rodada cochichar algo para aquela fantasiada de vampira, quando sinto uma mão em meu ombro; olho para o lado e uma bela garota, branca como as velas e de cabelos castanhos escorridos até a cintura, sorri tetricamente para mim. Ao contrário dos outros, ela estava com um simples vestido longo, ao feitio de uma Mortícia de branco, e não sei como eu não reparei nela quando recepcionei a galera. Talvez pela sua timidez recíproca, achei eu, havíamos nos percebido somente agora, no sofá que aciona o cupido aos adolescentes menos populares.
Como ela nada dizia, acedi ao seu pedido mudo e, com um aceno de suas mãos, começamos a rodopiar pelo salão; cerrei meus olhos e soltei um longo suspiro, agarrando-me àquele corpinho esquálido e, antes que eu entendesse como, nossos lábios estavam colados num beijo gelado e intenso. Ainda de olhos fechados, senti o corpo dela ir se afastando do meu, até nossas mãos se soltarem, e o frio que me apossou se tornou mais intenso, ao que despertei do meu transe...
O quê, mas como? Ela simplesmente desapareceu, assim como todos à minha volta... A festa evaporou, a música foi calada e as luzes se apagaram; apenas a lua cheia se espalha pelo piso reluzente do salão, contornando vultos lúgubres e meu semblante abobalhado... Uma porta bate no andar de cima.
Aterrorizado, sou forçado a subir a escadaria que orna o salão, decidido a encontrar meu pai. Meus pés dão passos inseguros, as pupilas procurando nesgas de luz que permitam delinear o corredor do segundo andar, imerso na escuridão... Já havia atravessado metade da linha reta quando ouvi outra porta ranger às minhas costas. Viro-me, de sobressalto: é a porta do meu quarto!
Retorno cautelosamente, o coração socando o peito magro, e espio a frestinha deixada entre a porta e o batente. Aos poucos adentro a câmara fúnebre, tal qual está o meu cômodo, a janela aberta permitindo que a lua brilhe sobre a espessa cobertura de poeira e teias de aranha. Mas como pode? Eu mesmo havia limpado até debaixo da... Oh! Minha cama também está diferente! Todo o seu perímetro está oculto por um gigantesco dossel...
Levanto o espesso véu, sentindo a batedeira subir do peito ao pescoço, e descubro o corpo mumificado daquela misteriosa garota de branco... Antes que eu pudesse expressar com ênfase o meu asco, repentinamente dois globos surgem nas órbitas vazias sobre as covas profundas, e suas mãos esqueléticas agarram meu pescoço, inclinando-me para um beijo fatal...
- Ahhhhhhhhhhhhhh!
Meu grito é quem me faz retornar à realidade, enquanto eu me reviro feito peixe no anzol bem no meio do salão, com todos me encarando. Levanto-me e abaixo o capuz de pano o máximo que posso, tentando esconder minhas bochechas ruborizadas, e corro escadaria acima, ignorando os chamados de meu pai e o crescente zunir de deboche.
Bato a porta do meu quarto, envergonhado, e desabo em minha cama, aliviado por estar tudo como era dantes – nada de poeira, dossel e teias, apenas meu bom e confortável edredom azul-marinho.
A música continua a embalar os passos no andar debaixo. Não sei se terei coragem de retornar ao salão e pedir desculpas à... A garota mumificada ressurge nitidamente em meus pensamentos, provocando um incômodo eriçar de pelos na minha nuca. Abraço meu edredom e fecho os olhos com força, orando para que aquele demônio me deixe em paz...
Sinto uma mão em meu ombro.



Amanda Reznor

Biografia: Escritora e compositora, Amanda Reznor possui três obras em processo de publicação: Miragens & Um Segredo (compilações), Vale dos Segredos (trilogia) e Estórias que Não Entendemos & Outro Segredo (contos sobrenaturais). No início de 2011 a autora foi premiada em 1º lugar com as poesias "O Ato de Antes" pela Letra Exótica e "Edenficação do Amor" pela Casa do Novo Autor, e será publicada em diferentes antologias pela Editora Estronho. Confira outros textos, prêmios, promoções e publicações pelo blog: http://amanda-reznor.blogspot.com e seja bem-vindo ao meu universo!




4 comentários:

  1. Wow! essa mãozinha no ombro arrepiou! hahahahaha
    Muito bom Amandinha! Adorei!

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  2. Muito bom. Ótimo para se ler em volta de uma fogueira!

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  3. Origada, Suzy, e obrigada, Jardim Selvagem xD

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